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Qual é o maior gargalo para expansão das redes de carregamento?

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Temos menos de 3 mil carregadores de uso coletivo no Brasil, sendo que a maior parte é de corrente alternada
Thiago Garcia – Temos menos de 3 mil carregadores de uso coletivo no Brasil, sendo que a maior parte é de corrente alternada

Fala galera, beleza? Acredito que já trouxe em diversos momentos o assunto sobre carregamento de veículos elétricos na coluna do Portal iG, tanto em relação ao tempo, quanto ao custo de carregamento. No texto da semana passada, eu comecei a escrever sobre a proposta de demonstrar a complexidade do sistema de abastecimento dos carros a combustão e acabei fluindo para o assunto das redes de transmissão elétrica. Penso que vale a pena discutir mais sobre o assunto. Se você não leu ainda o texto anterior.

Primeiramente, vale ressaltar que dificilmente o Brasil terá um problema de colapso no sistema de geração de energia elétrica por conta do aumento da frota de veículos elétricos. De acordo com o sistema SIGA da ANEEL, o nosso país possui um potencial de geração de aproximadamente 194 GW de potência outorgada no dia 15/05/2023. O consumo da frota atual não supera os 2% de capacidade de produção.

Outro dado interessante é que temos menos de 3 mil carregadores de uso coletivo no Brasil, sendo que a maior parte é de corrente alternada. Mas façamos um pequeno exercício: se tivermos 3 mil carregadores trabalhando em 50 kW simultaneamente, a potência dedicada para o carregamento será de 150 MW, isso significa apenas 0,07% da capacidade de geração.

Antes que pensem que o crescimento da frota elétrica pode atingir números preocupantes, vale lembrar alguns pontos: as montadoras priorizam o fornecimento de veículos elétricos aos mercados europeus e chineses , logo, o crescimento da frota brasileira sofrerá uma ampliação atenuada pela oferta de unidades limitada. Outro ponto importante é avaliar o crescimento da frota em comparação com a ampliação da produção de energia. Enquanto a frota eletrificada tem dobrado a cada ano nos últimos 5 anos , a matriz energética também cresce de forma consistente. Pode não ser o dobro, mas o crescimento garante produção suficiente para absorver o crescimento da frota sem gerar nenhum apagão.

Com base nos dados divulgados pela ANEEL , se somarmos as matrizes energéticas em construção e aquelas que ainda terão suas obras iniciadas, o Brasil terá uma capacidade de gerar 336 GW, um aumento de 42% da capacidade de produção atual. Desses 42% de acréscimo, apenas 8 GW serão de origem termelétrica, sendo que a maior parte virá de energia eólica e solar, isso sem contar que cada telhado no Brasil é uma potencial usina fotovoltaica. O crescimento pode ser ainda mais significativo considerando que boa parte do consumo doméstico pode ser atendida com a geração no próprio imóvel.

Apenas para jogar mais um pouquinho de tempero em nossa salada energética, o tão adorado Etanol é o combustível utilizado em apenas uma usina no Rio Grande do Sul, com capacidade de produção de 320 kW.

Então quer dizer que não corremos o risco de colapso no sistema elétrico? Calma, precisamos avaliar mais alguns pontos do sistema elétrico Brasil . A geração de energia é apenas o início de tudo e isso precisa ser transportado, ou no caso, transmitido. Ao sair das geradoras, a energia segue por linhas de transmissão de alta voltagem , passa por subestações, linhas de distribuição até chegar nas unidades consumidoras (relógios de luz).

Um fato relevante é que algumas pessoas demonstram opiniões contra os carros elétricos porque acreditam que terão de pagar pela energia consumida por esses veículos. De fato, não existe almoço grátis , mas a questão é a seguinte: a resolução nº 1.000 da ANEEL determina que uma estação de carregamento precisa estar vinculada a uma unidade consumidora, ou seja, se usuário do veículo elétrico não for cobrado pela recarga, o titular do relógio de luz que irá pagar.

Como não sou nenhum especialista na área, nem tentarei me aprofundar muito em relação às linhas de transmissão e subestações . Entretanto, por consenso, podemos imaginar que são sistemas caros e que necessitam de manutenção constante para alimentação de cada região. Como se trata de uma gigantesca rede, é possível concluir que há redundâncias na transmissão da energia, em grande parte do território nacional.

O funil começa a se estreitar a partir das redes de distribuição. As cidades crescem verticalmente, os equipamentos elétricos e suas respectivas potências só aumentam. Existe uma limitação técnica que precisa ser reavaliada a cada nova edificação. Só para se ter uma ideia, antes mesmo da obra de um novo condomínio ser iniciada, a construtora precisa informar à concessionária local qual será a demanda que o empreendimento terá após a sua entrega.

Tanto que, dificilmente você consegue aumentar a demanda de energia após a sua conclusão. Já tive a experiência que um cliente desejava dois carregadores de 22 kW em seu imóvel, mas não conseguiu aumentar a demanda do local. Isso não significa que seu imóvel não possa receber um carregador de veículo elétrico, mas é importante avaliar se o seu consumo de energia permite a adição de um carregador mais robusto.

Claro que estou falando de um imóvel com grande consumo de energia, inclusive com ar-condicionado . Neste caso, a margem de consumo que esses dois carregadores trariam seria maior do que se comparado com o consumo de um condomínio residencial. Como um condomínio possui uma demanda de energia muito maior que uma residência, a diferença não será tão grande em termos relativos.

Da mesma forma que as unidades consumidoras precisam avaliar se há margem para o aumento do consumo de energia , as distribuidoras também precisam realizar análise técnica para atendimento da nova demanda. Aí que fica a lição de casa para os municípios e distribuidoras.

Em resumo, temos produção de energia suficiente para alimentar os veículos elétricos atuais e dos novos que virão, e também temos equipes preparadas para a instalação dos carregadores nas residências e pontos comerciais. Agora fica a pergunta para empresas como ENEL, CEMIG, CELESC, EDP, COPEL, CPFL… Como vocês estão se preparando para atender a demanda adicional?

Não são poucos os relatos de novos carregadores sendo instalados nas cidades e rodovias que ficam aguardando o atendimento de aumento da demanda pelas distribuidoras. Também é comum vermos equipamentos com a potência limitada pelo mesmo motivo. Melhor atender em uma potência menor do que nunca serem ligados.

Vejo sempre comentários que o Brasil não está pronto para os veículos elétricos , não podemos dizer que é uma afirmação totalmente falsa. O crescimento da frota tem surpreendido até os usuários mais otimistas. Quem poderia imaginar que, em pouco mais de cinco anos, partiríamos de zero carregador para milhares? Inclusive, a comparação entre a mobilidade elétrica brasileira e a americana foi tema de live no meu canal no YouTube . Chegamos a conclusão que ainda falta muito para o Brasil chegar a uma situação consolidada como a dos Estados Unidos, mas tem tudo para atingir números tão surpreendentes quanto os americanos em um período de tempo menor.

Somente para termos uma ideia, a Tupinambá Energia informou que está projetando triplicar sua rede atual em shoppings centers e hipermercados até março de 2024. Seguindo a mesma linha de expansão rápida, a Raízen possui o plano de instalar, pelo menos, 35 carregadores de carga rápida com a marca Shell Recharge.

Lembrando mais um pequeno detalhe, empresas como a Raízen , instalam suas redes de carregamento agregadas a novas matrizes energéticas de fontes renováveis e de baixo carbono. Não seria exagero dizer que a mobilidade elétrica é um dos principais impulsionadores para ampliação da matriz energética mais limpa.

Para concluir, as distribuidoras precisam acelerar a evolução de suas redes e garantir a infraestrutura que o Brasil precisa, pois a mobilidade elétrica está crescendo na velocidade da luz. Carro elétrico já não é mais coisa do futuro.

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