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Cultura

Tradições ajudam a entender história do ES

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Qual é a cor do Espírito Santo? Mais importante do que uma resposta, a pergunta nos convida a uma reflexão. A herança cultural e religiosa do povo negro, manifestada por meio de músicas, danças, vestimentas, culinária, cultos, entre outros elementos, ajuda a compor a própria história e identidade capixabas. Conhecer, reconhecer e, sobretudo, respeitar, são fundamentais nesse processo. 

O ponto de partida para esse debate são as comunidades remanescentes de quilombos. O Espírito Santo possui 36 povoamentos certificados, ou seja, com o reconhecimento oficial. Esse número, porém, pode chegar a cerca de 50 grupamentos se forem computadas aquelas comunidades que ainda não obtiveram o registro.

De acordo com o professor Osvaldo Martins de Oliveira, doutor em Antropologia e pesquisador na área de estudos étnicos, essas comunidades despertam debate diverso sobre as raízes negras do solo capixaba.

“O direito, ocupação e uso da terra, o patrimônio cultural, a religiosidade, o que plantam, cultivam, colhem e consomem, indumentárias, entre outros elementos. São vários os aspectos que ajudam a compreender o próprio Espírito Santo em termos de história e cultura”, destacou Osvaldo Martins. São nessas comunidades, mas não somente nelas, que as tradições transbordam história, resistência e muita cultura. 

Manifestações culturais

“A Princesa foi embora/ escreveu no papelão/ quem quiser comer/ trabalha com sua mão.” Esse verso, típico da roda de jongo, demonstra a relação direta da manifestação cultural com a história e a ancestralidade escrava. O trecho faz referência à abolição da escravatura no Brasil, em 13 de maio de 1888, a partir da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. O Jongo ou Caxambu, como é tipicamente chamado no sul do estado, é uma forte herança da cultura negra que se traduz em uma mistura de dança, ritual e música apresentada em formato de roda ao som de tambores. 

O Jongo não é uma manifestação cultural exclusiva do Espírito Santo, estando presente, em especial, na Região Sudeste do país. Ele é, inclusive, reconhecido como patrimônio cultural brasileiro. Em território capixaba, 27 grupos foram mapeados e reconhecidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Outra manifestação cultural importante é o Ticumbi. Músicas, renda e fitas coloridas compõem esse ritual étnico bastante típico do norte capixaba, com destaque para os municípios de São Mateus e Conceição da Barra. O Ticumbi se desenvolve a partir de um enredo, uma narrativa sobre um cortejo real. “É um ritual mais elaborado, hierárquico. Não se faz de qualquer maneira. Requer ensaio, treinamento. Existe uma relação forte da cultura bantu (povos bantos da África) com o Ticumbi, que inclusive interpreta a história de uma disputa política entre reinos africanos”, explicou o professor Osvaldo.

Mais popular, o Congo também demonstra forte herança negra. As bandas de congo, que podem ser encontradas praticamente em todo o Espírito Santo, têm a casaca como instrumento icônico, um tipo de reco-reco que remonta a uma tradição cultural afro. Ao som da casaca e de outros instrumentos simples de madeira, surgem as vozes de homens e mulheres com músicas que fazem uma conexão com o passado e com a devoção popular aos orixás. Vale destacar que o Congo é considerado um gênero musical nascido no Espírito Santo.  

De forma geral, essas manifestações guardam marcadores importantes da cultura negra. “O turbante, a indumentária, as cores fortes, são apenas alguns marcadores culturais ligados à tradição africana e que são encontrados nas tradições culturais. É importante entender que esses rituais que guardam forte ligação com uma cultura negra popular exercem um papel fundamental de transmitir, ao longo de séculos, o pertencimento dos descendentes de africanos a sua origem. São elementos que são transmitidos na manifestação cultural que é, além de uma ação celebrativa, uma narrativa”, destaca o pesquisador.

Manifestações religiosas

As manifestações culturais também trazem uma característica interessante: o aspecto religioso, elemento constituinte das raízes culturais negras. Para a professora de Artes Danuza Bricio, que faz parte do Candomblé e é praticante da Umbanda, a cultura e a religião são duas dimensões impossíveis de se dissociar nesse debate. “Esse aspecto sociológico está presente no nosso cotidiano afro. É o jeito de falar, dançar, é o turbante na cabeça, enfim, um jogo de signos e significados muito conectados”. 

De acordo com o coordenador nacional da Rede de Matriz Africana (Rema), Geová Silva (ou Pai Geová D’Kavungo, como é chamado no Candomblé), a principal herança religiosa do povo negro é a própria ancestralidade africana. “Os escravizados africanos e seus descendentes influenciaram profundamente a formação cultural do Brasil desde a colonização portuguesa. Raros são os aspectos de nossa cultura que não tenham sido moldados com a ajuda da mão e da inteligência africanas e afro-brasileiras. Aspectos religiosos estão presentes no dia a dia do brasileiro, representados na música, dança, alimentação, vocabulário, indumentária. Esses elementos se encontram presentes nas festas populares até os dias atuais”, explica Geová.

O Candomblé e a Umbanda são as religiões de matriz africana presentes em todo o Espírito Santo, com maior concentração na Grande Vitória. Vale registrar algumas diferenças pontuadas por Geová: o Candomblé é uma religião propriamente africana, trazida pelos negros na condição de escravos; a Umbanda é uma religião brasileira, criada a partir de um rompimento do espiritismo, e que mistura elementos indígenas, católicos e africanos. As duas religiões também guardam diferenças no culto, nas divindades e nas cantigas.

“No Brasil, toda a diversidade religiosa foi duramente repreendida pelos portugueses que eram predominantemente católicos. Mesmo com a imposição dos brancos, os africanos passaram a adotar certas características católicas para ‘camuflar’ a religião afro. Nesse cenário formado por sincretismos, surgem os diversos tipos de Candomblé no território brasileiro”, lembra Geová. 

Sobre a presença das religiões de matriz africana em território capixaba, a educadora Danuza Bricio, ressalta a existência de um limbo histórico. “Alguns estudiosos defendem que o que surgiu primeiro no Espírito Santo foi outra manifestação religiosa afro, a Cabula. Outros pesquisadores vão dizer que lá no início do século 20 existiam centros kardecistas de fachada, que atuavam mesmo com o Candomblé, já que a prática era considerada uma contravenção. Muitas vezes o culto era feito no meio de mato. Daí a dificuldade do registro histórico”. 

O sincretismo religioso, muitas vezes usado como forma de legitimar algum culto, é um elemento presente nas manifestações culturais/religiosas do Espírito Santo. Um exemplo é a figura de São Benedito, santo católico negro que está presente em diversos festejos de raízes afro e marca o esforço de marginalizar a religiosidade de origem negra.

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“A celebração de divindades religiosas faz parte das manifestações culturais. Em alguns grupos, o São Benedito é interpretado como uma divindade da Umbanda, um preto velho. O São Benedito, inclusive, é um santo católico com uma relação direta com os negros que foram escravizados, embora a história mostre que o São Benedito mesmo não foi escravizado, e, sim, seus pais e avós. Mas a inserção do São Benedito no Brasil teve um objetivo catequético de tornar os escravos dóceis”, pontua o professor Osvaldo Martins.

Reconhecimento e respeito

O debate em torno do reconhecimento das práticas culturais e religiosas de raízes negras e sua importância como marcadores constituintes de uma identidade local está diretamente ligado a outra questão urgente: o combate ao preconceito. 

Danuza Bricio opina sobre essa luta, que é diária e constante. “O preconceito é o nosso café da manhã de tão presente que está no dia a dia. A partir do momento que você assume a religião, carrega os estigmas sociais todos os dias a partir das insígnias que te caracterizam. É algo que está na sua rotina, até na minha imposição pessoal no trabalho, nas ideias que defendo”. Para a professora, uma ferramenta poderosa para enfrentar o preconceito é a educação. “Precisamos da efetiva implementação da Lei Federal 10.639/2003, que tornou obrigatória a inclusão da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira’ no currículo da rede de ensino. Combater o racismo de forma geral e o preconceito religioso exige fazer esse debate dentro do processo educacional”. 

O pesquisador Osvaldo Martins reforçou: “Aquilo que o senso comum não conhece pode se revestir em um preconceito. Em contrapartida, hoje o preconceito, infelizmente, é ensinado a partir de ataques e da demonização das práticas religiosas de matriz africana. Daí vem o conceito de racismo religioso, uma ação deliberada de demonização dessas práticas. Um ataque ao direito de liberdade religiosa”. E não custa lembrar que racismo e preconceito religioso são crimes previstos em lei.
 

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